O longa-metragem foi lançado em 2005, escrito e dirigido por Jason Reitman (JUNO) e estrelado por Aaron Eckhart (Batman, o cavaleiro das trevas) e Robert Duvall (O poderoso chefão).
A trama acompanha o lobista Nick Naylor e sua jornada épica em defesa do uso de cigarros cancerígenos, tudo, é claro, com o fim único de ganhar muito dinheiro defendendo a indústria do tabaco de forma absolutamente inescrupulosa e nojenta.
Mas em momento algum o telespectador tem idéia de que é isso o que está acontecendo de verdade, uma vez que todo o filme é construído de forma a fazer a platéia se apaixonar pelo protagonista e torcer para que ele triunfe.
Para entender melhor o brilhantismo da construção de Obrigado por Fumar, é necessário primeiro arrolar os fatos sobre o que ocorre no filme:
1- O protagonista defende e promove a indústria dos cigarros, que comprovadamente viciam, causam doenças e matam.
2- O faz unicamente por dinheiro.
3- Ele não sente absolutamente nenhum remorso ao fazer isso.
Dito isto, parece impossível que venhamos a sentir empatia por tal salafrário, mas, analisemos hermeneuticamente (interpretação do contexto, ponto de vista e encadeamento estrutural) o que ocorre no filme:
Por primeiro, Nick Naylor se apresenta de forma sincera, admitindo o que faz: defende cigarros, sabe que eles causam doenças, o faz por dinheiro. Logo de início tal diálogo amolece a platéia, que se vê parcialmente movida pela sinceridade da personagem. Ademais, admitir os próprios defeitos é visto como demonstração de humildade e causa empatia quase que instantânea em nossa sociedade ocidental calcada na filosofia cristã de que os humildes de coração são pessoas de bem.Na segunda cena, Naylor está sob os olhares acusadores da platéia de um programa de TV, o que auxilia na criação de sua imagem simpática, já que nos compadecemos do lado hipossuficiente de qualquer enfrentamento. Todos contra Naylor, é o que pensamos, esquecendo por um momento que ele defende o uso de cigarros cancerígenos.
“Todos concordamos que o mais importante são os nossos filhos”, diz Nick, num golpe baixo, porém eficaz de arrebanhar seguidores no programa de TV. É uma clássica técnica argumentativa que consiste em não enfrentar o adversário, buscando, invés disso, o máximo de pontos passivos que o levem a ser obrigado a concordar com o que dizemos, mesmo que desviando do assunto em tela.
Tal técnica remonta, de forma análoga, os diálogos de Platão (Fedro, A República e outros) nos quais Sócrates vencia debates apenas obrigando seus interlocutores a admitir que ele estava certo em dezenas de afirmações que margeavam o tema principal sem realmente tocá-lo. No entanto, o intento socrático era altruístico, enquanto a de Naylor tem um quê de leitura-fria e má intenção.
Na terceira cena o lobista discursa para crianças numa sala de aula, apresentando outra técnica argumentativa interessante. Ao ser questionado sobre os malefícios do cigarro, Naylor responde: “Se seus pais falarem que chocolate é perigoso, vocês acreditariam?”
Tal afirmação conquista as crianças e essas pequenas vitórias também encantam o telespectador do filme. A técnica é simples: usar um exemplo com lógica interna funcional, mas sem vínculo lógico com o assunto tratado. Se a resposta for difícil de ser dada, diga um algo qualquer agradável de se ouvir.
“Argumente corretamente e nunca estará errado”, diz Naylor a seu filho, demonstrando que a interpretação hermenêutica de um fato e sua exposição de forma argumentativa eficiente é muito mais significativa do que o fato em si. Afirmação de vital importância para o mundo jurídico, em teoria calcado em fatos, mas na verdade escravo da exposição e narração de acontecimentos através de peças, depoimentos e pareceres.
A figura do mediador entre o fato e o indivíduo que ouve a narração deste é crucial. E, assim como Hermes era deus ao mesmo tempo em que era mensageiro, a hermenêutica nos mostra que não há narração neutra de um acontecimento. A essência de quem cataloga, observa ou vivencia o ocorrido se torna parte do que ocorreu.
Continuando a narrativa, Nick Naylor tem idéias acerca de como conquistar novos fumantes através do uso da mídia de massa (TV e cinema), o que o coloca em posição privilegiada e pode lhe render as boas graças do “Capitão” (Robert Duvall, no papel de um grande empresário do tabaco).
No entanto, Naylor se recusa a aceitar o crédito da idéia e deixa os louros caírem sobre a cabeça de seu chefe, que se surpreende com a generosidade do lobista e certamente se torna mais simpatizante de sua pessoa.
Em menor ou maior grau, também a platéia se comove com a atitude de Naylor, ou admira sua sagacidade.
Em cena com a repórter atraente Naylor diz que se vê como um mediador entre setores da sociedade, novamente trazendo a tona o verdadeiro papel do mediador: não há neutralidade, a mediação busca a um fim, assim como Hermes inseria seus intentos nas mensagens que entregava e a hermenêutica entende que só é possível compreender um enunciado levando em conta tudo o que está além do que é comunicado.
O lobista então revela seus segredos à repórter em troca de favores sexuais, uma falha, sem dúvida, mas uma forma de lembrar à platéia de que ele é apenas humano e errante, assim como todos somos. É a figura da tentação do protagonista.
Após, em conversa com seu filho, Naylor apresenta o seguinte problema: Sorvete de chocolate ou de baunilha, cada pessoa defende um dos sabores como sendo o melhor, mas qual deles está correto? O lobista demonstra que quando pontos de vista colidem, desconstruir o adversário é mais eficiente do que tentar provar que está certo: “Não é preciso provar que estou certo, apenas que você está errado.”
E por fim: “Não quero convencer meu adversário (até porque isso é impossível), e sim o público que ainda não formou uma opinião sobre o assunto”.
Novamente, a argumentação é exposta como a arte do convencimento, e não como a arte de estar certo.
Posteriormente o lobista é ameaçado de morte num programa de TV, seqüestrado e quase morto por terroristas anti-cigarro. O ocorrido causa a vitimização da personagem e conquista por completo a platéia: todos nos revoltamos com injustiças e agressões desmotivadas.
Tal ponto do filme, combinado à queda moral de Nick Naylor quando a repórter divulga seus segredos à imprensa, podem ser considerados como a prova de fogo que o protagonista passa.
A esta altura, é possível perceber, não conscientemente a principio, que toda a estrutura do filme remonta o mito arquétipo do Herói, presente na cultura humana desde o surgimento da humanidade. Vejamos a estrutura básica da jornada do herói:
1 – Início: a solidão do herói: representado na mitologia como o deserto, o mar ou a floresta escura, no filme substituído pelo mar de rostos mal encarados que o solitário herói enfrenta no programa de televisão.
2 – O mago: Na mitologia é o velho sábio que surge a fim de dotar o herói dos conhecimentos e armas necessários à jornada que está por vir, famosos magos são Merlin (O Rei Arthur), Obi Wan Kenobi (Guerra nas Estrelas) ou o companheiro de cela de O Conde de Montecristo. No filme é a figura do Capitão (Robert Duvall), que toma Naylor como seu protegido e lhe ensina valiosas lições referente ao campo em que ambos atuam.
3 – A prova de fogo: A queda aparentemente definitiva do herói, ponto alto da construção da empatia com o ouvinte do mito. É quando tudo parece perdido. Destacam-se a crucificação na história de Jesus Cristo, as “quase-mortes” de Indiana Jones nos filmes da série, a morte de Scott Pilgrim em “Scott Pilgrim contra o mundo” e inúmeras outras narrativas. No filme é a queda de Naylor, sua demissão e seu seqüestro.
4 – O ressurgimento: Quanto tudo parecia perdido, o herói triunfa. Cristo ressuscita, Daniel sai da cova dos leões ileso, Sansão mata os fariseus, Scott Pilgrim derrota Gideon, Luke Skywalker derrota Darth Vader e dezenas de outros exemplos. No filme é o momento em que, em face dos terríveis membros do congresso, Naylor, usando de sua argumentação, triunfa e convence a todos que o cigarro não é tão mal assim.
Observe-se que a queda (dificuldade temporária) do herói, ainda que causada por uma tentação (Frodo em O Senhor dos Anéis), de certa forma humaniza ainda mais a personagem e reforça a empatia com o público.
Assim foi com Jesus Cristo, cuja dor nas representações de sua morte apenas reforça a força de seu triunfo posterior (a ressurreição). Ou, da mesma forma, Jó, cujas atribulações tornam sua vitória final ainda mais saborosa ao leitor.
Assim, percebemos que é a estrutura, e não os fatos, o que nos faz torcer por Nick Naylor. Nosso inconsciente reconhece nele um herói, e sabemos que heróis devem ser reverenciados.É uma estrutura que agrada aos seres humanos e pode ser utilizada a fim de narrar qualquer fato.
Assim fica a lição do filme: a argumentação é a arte de estar sempre certo. Não há fato que não possa ser transmitido de forma atraente com o uso das ferramentas hermenêuticas corretas.




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